- Se todos os homens já nascem
culpados, é certo concluir que os bebês quando morrem estão
condenados?
A questão da salvação de crianças muito
pequenas e dos mentalmente incapazes tem gerado respostas diferentes
no meio teológico. O pelagianismo acredita que elas estão salvas
porque todo homem, como Adão no Éden, tem sua própria queda ao
atingir uma certa idade e só então se torna culpado. Dentro da
tradição reformada há quem entenda que todos os bebês que morrem são
eleitos e há também aqueles que entendem que há alguns bebês eleitos
e outros não. Calvino entendeu que todos já nascem culpados, mas que
Deus salva alguns bebezinhos que morrem por um meio diferente
daquele que usa para salvar os adultos, sendo certo que esse meio
não nos foi revelado. Calvino entende que a justificação mediante a
fé é a forma comum de Deus atuar no campo salvífico, mas que pode
existir um outro meio, contido em seus mistérios, pelo qual ele
alcança os incapazes. Toda essa discussão demonstra que temos muito
pouco (se é que temos!) material bíblico sobre esse assunto. Textos
como Mateus 19.14 não ajudam muito porque parecem enfatizar mais a
atitude interior das crianças do que sua idade (Mt 18.1-3). Além
disso, à luz do contexto geral parece que Jesus se refere a crianças
que têm fé nele (Mt 18.6) e não a bebezinhos. Também as palavras de
Davi em 2Sm 12.23 só significam que ele iria para a sepultura, ou
seja, o mesmo local onde seu filho seria posto. Davi não fala sobre
o céu nesse texto, conforme pensam alguns. Portanto, essa é uma das
questões que, se quisermos ser honestos diante dela, temos que
dizer: "Eu não sei."
- É imprescindível a ida ao seminário
para a formação pastoral? Qual é o papel da igreja na formação de
vocacionados?
As exigências bíblicas para que um homem seja
pastor estão listadas em 1Tm 3.1-7 e Tt 1.5-9. Obviamente elas não
incluem a ida ao seminário. Por isso, o seminário é apenas uma
opção. No meu entender é uma boa opção, pois oferece uma formação
que a igreja geralmente não tem condições de dar. O ideal seria que
a igreja formasse pastores. Para isso, porém, o evangelicalismo
teria que mudar de face. Seria preciso que o meio evangélico
deixasse de dar tanta ênfase a invenções e práticas vazias e se
dedicasse a atividades mais produtivas em termos teológicos. A
igreja que fizer isso poderá formar pastores de boa qualidade.
- Como marido e esposa podem possuir
o corpo um do outro em santidade e
respeito?
Não há como marido e esposa se possuírem sem
santidade. O leito conjugal é sem mácula (Hb.13.4). As relações fora
dele (adultério, fornicação, etc.) é que são impuras. Essa pergunta,
contudo, provavelmente se refere a formas não usuais de relação. A
Bíblia não trata sobre esse assunto. O texto de Romanos 1.26, à luz
de todo o contexto, certamente se refere ao lesbianismo. Por outro
lado, o casal, na prática de suas carícias, deve observar valores
como a boa higiene e a saúde corporal. Qualquer prática que despreze
essas coisas revela desprezo pelo corpo e Deus não se agradará
delas.
- O liberalismo teológico moderno
está infiltrado no fundamentalismo de alguma
forma?
É claro que sim. Sempre que entramos em
igrejas conservadoras ou em seminários de tradição reformada e ali
vemos líderes dando explicações racionais para os milagres descritos
na Bíblia estamos diante do velho liberalismo teológico infiltrado
nas denominações tradicionais. A herança maior, porém, do
liberalismo é o subjetivismo e a ênfase no sentimento como fator
distintivo da religião. O pai do liberalismo teológico, Friedrich
Schleiermacher, definiu religião como sentimento de dependência de
Deus. O que ele quis dizer exatamente com isso é mais complexo do
que a princípio parece e é impossível explicar no curto espaço de
que dispomos. Seja como for, onde você encontrar a ênfase no
sentimento individual acima do ensino objetivo da Bíblia, ali você
estará diante de um dos principais elementos do liberalismo na sua
forma inicial.
Em tempo: a palavra "fundamentalismo" não é
muito adequada hoje em dia. Na verdade, com o tempo ela passou a
designar inclusive pessoas de uma certa tendência escatológica, o
que pode tornar o seu uso um pouco confuso. Talvez uma boa palavra
para se referir à vertente que crê na Bíblia como inspirada por
Deus, inerrante e infalível, seja "conservadorismo". Pessoalmente,
eu uso as expressões "ortodoxia" e "tradição reformada".
- Se as orientações bíblicas são
supra-culturais, como entender as determinações da mulher
manter-se calada na igreja e também usar véu? Temos que obedecer
isso tudo hoje?
Muito cuidado! As diversas partes da Bíblia
foram produzidas por homens inseridos em culturas específicas. Isso
significa que há vários elementos dessas culturas presentes em seus
escritos. O que afirmamos é que existem determinações na Bíblia que
não estão lá por causa desses aspectos culturais. Estão lá porque
são a vontade de Deus. São supraculturais. Para descobrir a
diferença basta olhar as razões sobre as quais se funda uma ordem.
Por exemplo: a ordem para a mulher não exercer autoridade na igreja
(2Tm 2.11-12) se funda sobre a seqüência da criação e a doutrina da
Queda (2Tm 2.13-14). Essas bases não são culturais. São bases
doutrinárias. Logo, a orientação vale para todos os lugares em todas
as épocas. Já a orientação para não comer animal sufocado nem sangue
(At 15.20) se funda em razões histórico-culturais. A proibição tinha
em vista evitar que os judeus que estavam em todas as cidades,
observando atentamente os crentes, se escandalizassem com o modo de
vida cristão e, tendo seus escrúpulos feridos, criassem uma barreira
contra a pregação do evangelho (At 15.21). Esse quadro
histórico-cultural desapareceu. Logo, não precisamos nos preocupar
com a proibição de Atos 15, restando dela apenas o princípio de que
devemos ser sensíveis ao que pode criar obstáculos ao anúncio da
fé.
Já a questão do véu é mais complicada (1Co
11.3-16). Isso porque a determinação de Paulo nesse caso abrange um
símbolo que no seu tempo era sinal de submissão
(1Co 11.10). Naqueles dias, quando uma mulher usava véu estava com
isso dizendo que estava sob a autoridade do marido. Nos nossos dias
e no nosso país, o véu não simboliza isso. Aliás, na nossa cultura o
véu na significa nada. Por isso, a saída que os homens preocupados
em obedecer a Bíblia têm procurado é a busca de um "correspondente
cultural". Que a mulher deve ser submissa, nisso todos eles estão de
acordo. O problema é como encontrar em nossa cultura um símbolo
externo disso. Talvez a aliança de casamento sirva. Porém, se a
aliança significa submissão, o homem não poderia usá-la. Assim,
enquanto não encontramos uma solução, as opções têm sido duas: a
mulher passa a usar véu, mesmo sem comunicar nada com isso às
pessoas dos nossos dias (essa foi a opção tomada pela Igreja dos
Irmãos ou Casa de Oração, denominação muito comum no Espírito Santo
e no Rio de Janeiro); ou a mulher se mantém submissa sem nenhum
símbolo disso por falta do correspondente cultural (opção da maioria
dos cristãos). Pessoalmente vejo seriedade nas duas opções. Seja
como for o símbolo não pode ser mais importante do que a realidade
simbolizada, ou seja, a sujeição. Se o símbolo é meramente cultural,
a realidade que ele simboliza não é (1Co 11.3) e, por isso, deve ser
observada.
- Por que o senhor disse nas
palestras que não é recomendável que o crente busque ajuda
profissional para os seus problemas emocionais? Se esses
profissionais podem ajudar, qual o problema em
procurá-los?
Eu não disse que os crentes não devem buscar
ajuda profissional para seus problemas emocionais. Como pastor,
muitas vezes encaminho pessoas que me procuram para psicólogos de
minha confiança e juntos já conseguimos a "cura" de muita gente que
precisava de tratamento pesado e acompanhamento médico.
O que eu disse é que há crentes que não sabem
buscar na Palavra de Deus nenhuma gota de consolo. Se são reprovados
numa prova ou se não conseguem comprar uma roupa nova já caem em
depressão e vão fazer análise. Sei de crentes que quando recebem uma
má notícia, imediatamente ligam para o psicólogo para marcar uma
consulta e se envolvem num "tratamento" que a meu ver é
desnecessário, considerando que a Palavra de Deus "é perfeita e
restaura a alma" (Sl 19.7). E que dizer daqueles crentes que buscam
nos "profissionais" orientações sobre como educar seus filhos,
quando a Bíblia fornece tudo de que precisamos nessa área? De fato,
há crentes para quem a Bíblia não tem qualquer força de consolo e
auxílio. São pessoas que não crêem no seu poder restaurador e
capacitador e confiam mais na ciência do que no Espírito Santo que,
conforme ensinou Jesus, é o Conselheiro Supremo (Jo 14.16-17).
Essas pessoas não sabem lidar com os
problemas da vida como crentes; não sabem buscar nele o alívio
almejado e, assim, gastam rios de dinheiro em tratamentos que muitas
vezes são incapazes de produzir aquele efeito maravilhoso que os que
andam com Deus conhecem. Será que um psicólogo pode produzir em
algum paciente a paz que excede a todo o entendimento, a paz que
guarda o coração e a mente de que fala Paulo em Filipenses 4.6-7?
Duvido muito. Aliás, quando a psicoterapia completou 100 anos de
existência muitos estudiosos se manifestaram questionando sua
eficiência. Segundo eles, pessoas acometidas de fortes dores
emocionais em virtude de luto, quando faziam "análise" se
recuperavam no mesmo período de tempo daquelas que jamais haviam
procurado um psicoterapeuta. Isso levava a crer que o tempo é que
servia de remédio para os enlutados e não o tratamento com um
psicólogo.
A meu ver, tudo isso significa que muita
importância tem sido dada à psicologia e nenhum valor tem sido dado
à Bíblia. Acredito que um equilíbrio maior deva ser abraçado pelos
crentes. Não vamos jogar fora a psicologia que já se comprovou útil
em muitos aspectos. Porém, ela não pode ocupar o lugar da Sagrada
Escritura, do Espírito Santo e da oração na vida do crente. Acredito
que o cristão pode manter o equilíbrio nessas coisas, buscando ajuda
médica sim, mas somente nas áreas que Deus deixou para a ciência
cuidar.
- Se a Bíblia é a verdade, por que o
senhor disse que Provérbios 22.6 não é garantia de que a criança
ensinada nos caminhos de Deus vai permanecer neles até o
fim?
Eu disse isso por uma razão hermenêutica e
uma razão lógica. A razão hermenêutica é a seguinte: o livro de
Provérbios não é um livro de promessas. Devemos levar isso em conta
ao interpretá-lo. Os provérbios querem nos mostrar resultados comuns
das nossas ações num universo moral. Neles vemos que certos
procedimentos, na maior parte das vezes, trazem certas
conseqüências. Porém, os provérbios não garantem essas
conseqüências. Veja, por exemplo, Provérbios 30.17. Já pensou se
isso fosse uma promessa? O que o autor (ou autores) de Provérbios
querem, contudo, é dizer que uma conduta ruim,
geralmente, traz conseqüências ruins; e uma
conduta boa, geralmente, traz conseqüências
boas. Ele não promete isso, mas mostra que é isso o que podemos
esperar num universo regido também por leis morais. É assim que
devemos entender Provérbios 22.6. Não há ali uma promessa, mas sim a
descrição de uma grande possibilidade, como ocorre em todo o
livro.
A segunda razão (menos relevante que a
primeira), como eu disse, é lógica. Basta observar a realidade ao
nosso redor. Existem pais que ensinaram corretamente seus filhos e,
no entanto, um ou outro deles, apesar de receber a mesma orientação,
se desviou. Será que a Bíblia falhou? Não. Ela simplesmente nunca
prometeu que toda a boa orientação sempre seria bem acolhida.