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Nem um olhar!
Mauro Clark

O jovem senhor estava deitado no leito do hospital público, no dia seguinte da cirurgia. Perguntamos como havia sido no centro cirúrgico, especialmente interessados porque o médico que o operara era um figurão, perito naquele tipo de câncer. 

- Ah, eu estava muito nervoso. O doutor estava bem ao meu lado.
Nesse ponto o recém-operado mudou o tom de voz, baixou a cabeça e continuou, triste:
- Mas ele não me dirigiu uma só palavra. Aliás, nem olhar para mim ele olhou! Ficava o tempo todo mexendo no celular. Ainda bem que aquela angústia só durou alguns minutos, antes que a anestesia me “apagasse”.

Os poucos ao redor do leito olhamos uns para os outros. Revoltados, ficamos a perguntar como um ser humano, cuja profissão é tentar curar outros seres humanos, pode tratar tão mal os seus frágeis pacientes.

Mas não escrevi este artigo para falar mal dos médicos desumanos. Para ser impiedoso, não precisa ser médico. Basta ser pecador... e isto todos somos!

Meu propósito é duplo.
Primeiro. Lembrar que qualquer um, independentemente da profissão, pode se encontrar (e, mais do que pensa, se encontra mesmo) na condição privilegiada de poder ajudar alguém carente. Um abraço, um tocar no ombro, pode desarmar um clima de pânico numa mente aterrorizada. Um mero sorriso pode lembrar ao angustiado que ainda há alegria nesta vida. É tão fácil. Tão desconcertantemente fácil!

Segundo. Pensei em sugerir que, ao depararmos no consultório com um médico frio como a morte, pedir que ele seja um pouco mais simpático. Mas... não me iludo. Essa sugestão ninguém acatará. Nem eu mesmo! Não é fácil ter coragem de confrontar quem se julga um pequeno deus, que tem o real poder de fazer muito bem ou muito mal ao nosso corpo e mente.

Proponho uma medida, paliativa que seja, mas que talvez colabore para diminuir esse abuso vestido de branco. Elogie generosamente um medico risonho, afável, sensível, humano (sim, garanto que eles ainda existem!) Além de ser um justo incentivo para que continuem assim, pode ser que alguns de seus colegas rudes notem, sintam uma pontinha de constrangimento e tenham os corações tocados no que lhes resta de amor ao próximo.

 



03/02/2010
Palavras-chave: Saúde, Amor ao próximo
 
 


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